Que cachinhos mais bonitos, D. Maria pensou ao ver o filho da vizinha. Parecem uma árvore.
Era final de tarde, o sol se pondo. Dona Maria observava o moleque brincando, descuidado, de longe. Havia passado o dia ali, se sujando, se divertindo. Era tão gentil, um doce de pessoa. Tinha um sorriso radiante, feito um sol. Pensou no quão semelhante ele era a seu falecido filho, pobre coitado. Morreu de doença da alma.
Não conseguia olhar para a criança sem sentir uma dor no estômago. Tão similar. Teria ele a mesma sina que seu filho? Era o que pensava quando via qualquer jovem que ousava evocar a lembrança do seu bebê, tão pequeno, tão morto. Pobrezinho. Não cuidara muito bem dele quando teve oportunidade. Já foi, ela se consolava, Agora não tem mais como.
O menino não fazia ideia da angústia que sua mera existência no campo de visão dela causava. A pontada aguda que seu coração sentia ao ver sua configuração lá, tão viva, tão presente, tão forte. A revirada no estômago ao pensar no que não voltaria mais, não voltaria nunca mais. Não sabia que ela olhava para ele com o mesmo cuidado maternal que ela costumava olhar para seu filho, pobrezinho, coitado, morto. Menino descuidado. O sorriso mais parecia o sol incandescente das duas da tarde, sol que atordoava, que deixava a pele queimando e dificultava a respiração.
"Ei, moleque," Dona Maria falou sem pensar, interrompendo a diversão do menino e se arrependendo quando ele atendeu o chamado e dirigiu para ela aquele infernal e cegante sorriso. Lindo sorriso. Radiante sorriso. "venha cá, venha cá"
Foi, obediente, claramente confiava nela. Não havia motivo de desconfiança; Dona Maria era uma velha gentil, uma velha coitada. Uma velha com filho morto. "Qual é, Dona Maria?" perguntou com aquela pinta de jovem, que a fez sorrir. Doce, doce juventude. Sol.
"Cuidado, menino. Não vê que brincando desse jeito cê vai sujar sua blusa? Não pode, não pode. O que que tua mãe vai pensar quando tu chegar em casa?"
"Ora, Dona Maria, mainha briga, mas meu pai não liga não. Diz que se sujar é coisa de menino que vira homem."
"E apois, seu pai é um besta. Tens que cuidar da tua integridade. Não vê o mundo perigoso que tu vive? Se vêem um moleque como tu na rua já acham que não é cuidado e que podem fazer o que quiser."
"Eu sei me cuidar, Dona Maria. E mainha e painho cuidam de mim, também. Se avexe não."
"Sua mãe e seu pai são dois bestas. Meu menino Jesus vivia andando sujo também."
"Ave Maria, Dona Maria. Sinto muito. Não queria fazer a senhora ficar triste."
"Não fez, menino, não fez," ela tentou o acalmar. Viu que estava sendo irracional, controladora. Queria proteger um menino que não era dela para proteger. Então, fez um gesto para que ele esquecesse. "A velha Maria só tá triste mesmo. Volte a brincar, vá, que daqui a pouco o sol vai simbora e teus pais te chamam pra comer. E me desculpe por chamar eles de besta. Não se importe com sujeira não. Isso é coisa pros velhos. Queria eu ter roupa suja de menino pra lavar."
"Certeza, Dona Maria? Posso ficar falando com a senhora se quiser." Seriam todos os meninos tão doces assim? Cuidado, meu filho, ela pensou. Essa sensibilidade toda, esse brilho, nada disso pode ser coisa boa. Meu Jesus bem sabe disso.
Sabia, ela se corrigiu. Meu menino Jesus sabia.
"Não, menino. Vai sujar a blusa, vai viver, vai. E se tua mãe te implicar, pode trazer pra mim que eu lavo, visse?"